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Clínica de Recuperação de Drogas em BH
Aqui o assunto é a substância. O que muda no tempo, no risco da retirada e no acompanhamento quando a droga é uma e não outra.
A droga envolvida muda o cuidado em três pontos concretos: a velocidade com que a substância chega ao cérebro, o que acontece no corpo quando ela falta, e se existe ou não medicamento com efeito comprovado. Por isso a primeira pergunta de qualquer atendimento sério é qual substância, com que frequência e há quanto tempo.
Cocaína fumada
Crack
O crack não é uma droga diferente da cocaína. É a mesma molécula levada ao cérebro por outro caminho. Quando a substância é fumada, a fumaça vai para os pulmões, que são muito vascularizados, e uma grande quantidade chega ao cérebro quase imediatamente, produzindo o que o material técnico chama de efeito explosivo. Em seguida a droga é eliminada com a mesma velocidade, e a interrupção súbita do bem-estar vem acompanhada de enorme vontade de usar de novo. É essa combinação, e não a substância em si, que produz o ciclo compulsivo que a família vê de fora.
A retirada acontece em três fases descritas. Na primeira, o crash, cerca de cinco a dez minutos depois de cessado o uso, há queda drástica de humor e energia, inquietação, ansiedade, irritabilidade e às vezes paranoia. Na segunda vem o desgaste físico extremo, com muito sono, sonhos vívidos e fome intensa, e o auge do sofrimento ocorre entre o segundo e o quarto dia, quando as recaídas são mais frequentes. Na terceira, a extinção, os sintomas cedem e a fissura fica menos frequente, mas as alterações de humor podem durar meses.
Dois dados mudam a expectativa da família. A pesquisa nacional da Fiocruz, a maior já feita sobre o tema, entrevistou 32.359 pessoas e encontrou quase metade dos usuários das capitais em situação de rua. E, contrariando o senso comum, quase 80% deles diziam querer receber tratamento. Recusa e vontade convivem.
Há ainda um detalhe clínico que costuma passar batido: muitos usuários de crack chegam desnutridos, o que aumenta o risco de deficiência de tiamina mesmo em quem não bebe.
Fontes: SUPERA, Módulo 2; SUPERA, Módulo 6; Fiocruz, Pesquisa Nacional sobre o Uso de Crack.
Cocaína aspirada e injetável
Cocaína
Na forma de pó, a cocaína é aspirada pelo nariz ou dissolvida e injetada. A via injetável exige droga bastante pura e por isso sai muito mais cara. A sequência de efeitos é mais lenta do que a da forma fumada, e a experiência clínica indica que os sintomas da retirada começam mais devagar e são menos intensos, ainda que sejam os mesmos sintomas.
O quadro de abstinência de estimulantes reúne depressão, ansiedade, irritabilidade, perda de interesse ou prazer nas coisas de que a pessoa gostava, fadiga, insônia ou sonolência durante o dia, agitação, aumento do apetite e fissura muito intensa. Nada disso aparece na pele nem no exame de rotina, e é justamente por isso que a família costuma interpretar como preguiça ou má vontade.
O dano físico, esse é concreto. Os sistemas mais afetados são o coração e as artérias, o cérebro, os pulmões e o sistema reprodutivo. Sob efeito da substância as artérias se contraem e o coração acelera, combinação que pode levar a infarto agudo do miocárdio e a arritmias.
Sobre remédio, é preciso ser honesto. Não existe tratamento medicamentoso específico para a abstinência ou a dependência de cocaína e crack. O que se usa serve para manejar agitação, fissura, delírios e alterações de humor. Dissulfiram e topiramato foram estudados, e os achados ainda são inconclusivos. Ou seja: o que sustenta a recuperação aqui é vínculo, rotina e acompanhamento, não uma receita.
Fontes: SUPERA, Módulo 2; SUPERA, Módulo 6, tratamentos farmacológicos.
Canabinoides
Maconha
Com a maconha, o problema quase nunca é a retirada. O THC é muito lipossolúvel e fica armazenado no tecido gorduroso, o que prolonga o efeito e faz com que traços apareçam na urina semanas ou meses depois do último uso. Vale a família saber disso antes de tirar conclusão de exame.
Fumada, a substância age em zero a dez minutos, tem pico por volta dos trinta minutos e começa a ceder entre quarenta e cinco e sessenta minutos. A tolerância só aparece em consumo elevado. Cerca de 10% dos usuários crônicos desenvolvem fissura e centralidade na droga, isto é, a vida passa a girar em torno dela. A síndrome de abstinência é descrita como fracamente definida e de baixa intensidade, restrita a doses altas e uso prolongado: ansiedade, insônia, perda de apetite, tremor das mãos, sudorese e humor deprimido.
O peso está no uso longo. Ele é associado a ansiedade, paranoia, pânico e depressão, a prejuízo de memória e da capacidade de resolver problemas, e a problemas de atenção e motivação. Há ainda o ponto que mais aflige pais: psicose entre pessoas com histórico familiar de esquizofrenia, e uso na adolescência aumentando a probabilidade de sintomas psicóticos depois dos 26 anos.
Por isso um caso de maconha raramente começa por desintoxicação. Começa por avaliação, porque o que precisa ser medido é o estrago cognitivo e o risco psíquico, não o desconforto físico da parada.
O que veio no comprimido
Drogas sintéticas
Aqui o risco muda de natureza. O ecstasy, nome de rua da MDMA, é um derivado anfetamínico sintetizado em laboratórios clandestinos, onde a molécula é alterada de propósito. A pureza varia muito e o comprimido pode conter cafeína, metanfetamina, efedrina ou ketamina, além de ser frequentemente combinado com álcool ou maconha, o que aumenta bastante a chance de problema grave.
Os efeitos máximos chegam ao final da primeira hora e duram cerca de duas a três horas, e é comum a pessoa tomar mais doses para recuperar a sensação. Os efeitos tóxicos agudos incluem hipertensão, arritmia cardíaca, lesão dos músculos esqueléticos e falência renal, além de hipertermia, que pode chegar a 42 graus e evoluir para um quadro fulminante.
Existe ainda um problema de nome. A Anvisa mantém e atualiza a lista de substâncias proibidas conforme novas substâncias psicoativas aparecem em circulação, o que quer dizer que muita coisa vendida com o mesmo apelido é quimicamente outra coisa.
A consequência prática para a família é dura e simples: em episódio agudo com sintéticos, ninguém sabe ao certo o que a pessoa tomou. Emergência vem antes de plano de tratamento.
Fontes: SUPERA, Módulo 2; Anvisa, Novas Substâncias Psicoativas.
Consequência prática
Por que a droga muda o tratamento
Juntando as quatro descrições acima, três diferenças aparecem.
A velocidade muda o vínculo com a droga. A mesma molécula fumada ou aspirada produz padrões de uso diferentes, e um ciclo mais rápido deixa janelas mais curtas entre uma crise e outra, o que encurta o tempo que a família tem para agir.
O risco na retirada não é igual. Nos estimulantes a parada é um sofrimento psíquico intenso, com queda de humor e fissura, mas o perigo imediato de vida vem do estado geral da pessoa. Já a retirada do álcool, no extremo, pode chegar ao delirium tremens, com febre, convulsões e alucinações, e sem tratamento a tempo pode matar. Na maconha, ao contrário, a retirada é de baixa intensidade. Tratar essas três situações com o mesmo protocolo é errar em alguma delas.
O que existe de medicamento varia. Para cocaína e crack não há remédio específico com eficácia comprovada, o que joga o peso do resultado sobre o acompanhamento continuado.
A lei acompanha esse raciocínio. Antes de qualquer internação sem consentimento, a Lei de Drogas exige avaliação sobre o tipo de droga utilizada e o padrão de uso, além da comprovação de que as outras alternativas da rede não bastam. E a internação, em qualquer modalidade, só é indicada quando os recursos fora do hospital se mostram insuficientes.
Se a sua dúvida é menos sobre a substância e mais sobre a pessoa, sobre como reconhecer os sinais e o que fazer quando ela nega, o assunto está na página de tratamento para dependência química em BH.
Para ver a sequência do atendimento desde a ligação até o encaminhamento, veja como funciona o atendimento.
Fontes: SUPERA, Módulo 2; Lei 11.343/2006, art. 23-A, § 5º e § 6º.
Diga qual substância e há quanto tempo. O resto a gente organiza.
Com essas duas informações já é possível explicar à família quais formatos de cuidado fazem sentido para o caso.