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Central de orientação · Belo Horizonte e região

Clínica Psiquiátrica em BH

Para quando o sofrimento psíquico anda junto com o uso e a família não consegue mais dizer qual dos dois veio primeiro.

Resposta curta

Quando um transtorno mental aparece junto com o uso de substâncias, a literatura chama isso de comorbidade ou duplo diagnóstico, e é comum: estudos apontam que cerca de metade das pessoas com abuso ou dependência de álcool ou outras drogas tem também algum diagnóstico psiquiátrico. Tratar só um dos dois é a falha mais frequente, e é o que costuma explicar recaída depois de um tratamento que parecia ter dado certo.

Duplo diagnóstico

Quando o caso deixa de ser só dependência

Comorbidade é a ocorrência de dois ou mais transtornos na mesma pessoa, num mesmo período. No campo da dependência isso não é exceção: o abuso de substâncias é o transtorno coexistente mais frequente entre pessoas com transtornos mentais. Os quadros que mais aparecem juntos são os transtornos de humor, como depressão e bipolaridade, os transtornos de ansiedade, o déficit de atenção e hiperatividade e a esquizofrenia.

Os números dão a dimensão, com uma ressalva sobre a origem deles. O levantamento mais citado nessa área é o Epidemiologic Catchment Area Study, uma pesquisa norte-americana dos anos 1980: nela, cerca de metade das pessoas diagnosticadas com abuso ou dependência de álcool ou outras drogas apresentava também algum diagnóstico psiquiátrico, sendo 26% transtornos do humor, 28% transtorno de ansiedade, 18% transtorno de personalidade antissocial e 7% esquizofrenia. É um estudo antigo e de outro país, então ele serve para dar ordem de grandeza, não para descrever Belo Horizonte. Na mesma revisão aparecem a depressão maior entre dependentes químicos, de 30% a 50%, e o dado de que de 30% a 60% dos usuários de cocaína têm um transtorno psiquiátrico além do uso.

O problema é que a comorbidade é frequentemente subestimada e subdiagnosticada. Os sintomas de um transtorno mental acabam atribuídos ao uso agudo ou à abstinência, e o contrário também acontece: sinais de intoxicação ou de abstinência são lidos como se fossem outra doença psiquiátrica.

Para a família, dois sinais ajudam a levantar a suspeita. O primeiro é o sintoma que não passa depois que o período de abstinência já ficou para trás. O segundo é o sintoma que a família lembra de ter visto antes de o uso começar. Nenhum dos dois fecha diagnóstico, mas ambos justificam pedir avaliação psiquiátrica em vez de apenas repetir o tratamento anterior.

Fonte: SUPERA, Módulo 6, tratamento de comorbidades associadas à dependência de drogas.

A discussão que não termina em casa

Depressão e ansiedade junto com o uso

Toda família que passa por isso já teve a mesma discussão: ele bebe porque é ansioso, ou ficou ansioso porque bebe. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, e é por isso que a discussão não termina.

Existe uma hipótese estudada para explicar o encontro entre os dois quadros, a de automedicação: a pessoa usa a substância para controlar o próprio sintoma, e o uso acaba agravando o transtorno que ela tentava aliviar. No caso da ansiedade, o álcool é a substância mais utilizada para diminuir os sintomas. Em pacientes ansiosos, ataques de pânico e fobias costumam estar associados a um alcoolismo mais grave, e entre pessoas com transtorno de ansiedade, de 20% a 45% relatam história de dependência de álcool.

Isso muda o que se pede ao serviço de saúde. Não adianta pedir só desintoxicação se o sofrimento que sustentava o uso continua intacto, e não adianta pedir só consulta psiquiátrica se a pessoa segue usando todos os dias, porque o próprio uso distorce a avaliação. A ordem entre as duas coisas é decisão clínica, tomada com a pessoa na frente, não uma escolha que a família precise fazer sozinha antes de procurar ajuda.

Fonte: SUPERA, Módulo 6, uso de drogas em indivíduos com transtornos mentais.

Emergência

Surto e crise: o que fazer na hora

Crise não é hora de pesquisar clínica. É hora de acionar quem atende agora.

O SAMU 192 é gratuito, funciona 24 horas por dia nos sete dias da semana e atende urgências de natureza psiquiátrica, incluindo tentativas de suicídio. É o número a discar quando existe risco à vida, de quem está em crise ou de quem está por perto.

Se o quadro psiquiátrico ainda não está claro e a preocupação central é o uso em si, comece pela página de tratamento para dependência química em BH, que descreve também quais serviços de atenção psicossocial existem na cidade e quando cada um atende.

Passada a urgência, o pronto-socorro não é o fim do caminho: o que evita a próxima crise é a continuidade do acompanhamento, e é disso que trata a última seção desta página.

Há ainda três direitos previstos na Lei 10.216/2001 que vale a família saber de cor, porque eles valem no meio da crise:

  • ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis;
  • ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental;
  • ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária.

Esse último ponto merece ênfase. Crise não é sinônimo de internação, e a lei coloca a avaliação médica como o passo que decide, não a pressa de quem está assustado.

Fontes: Ministério da Saúde, SAMU 192; Lei 10.216/2001, art. 2º, parágrafo único.

Depois da crise

Como é o acompanhamento psiquiátrico

Passada a urgência, o acompanhamento tem forma definida. Nos CAPS, ele é feito por equipe multiprofissional e inclui atendimento continuado, suporte em momentos de crise, atendimentos individuais e em grupo, atividades terapêuticas e orientação para inclusão na escola e no trabalho. Tudo isso é organizado num Projeto Terapêutico Singular, construído com a pessoa e com a família, e é gratuito pelo SUS.

Quando o caso chega à internação, a Lei 10.216/2001 define o que esse regime precisa oferecer: assistência integral à pessoa, incluindo serviços médicos, de assistência social, psicológicos, ocupacionais, de lazer e outros. Um lugar que ofereça apenas medicação e vigilância não cumpre o que a lei descreve.

Na prática, a pergunta que a família deve fazer ao ligar para qualquer serviço é simples: quem avalia a parte psiquiátrica e com que frequência. Se a resposta for vaga, o caso vai ser tratado como se fosse só dependência, que é exatamente o erro que esta página descreve.

Para ver a sequência do atendimento desde a ligação até o encaminhamento, veja como funciona o atendimento.

Fontes: Ministério da Saúde, Centros de Atenção Psicossocial; Lei 10.216/2001, art. 4º, § 2º.

Conte os dois lados do caso, não só o uso.

O que mudou no humor, no sono e no comportamento pesa tanto quanto a substância na hora de encaminhar.

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